Mãe


120 x 100 cm, óleo sobre tela

Respiramos o teu ar

e deixamos que a tua brisa nos beije

e que o teu vento nos empurre para trás

ou nos impulsione para a frente

Bebemos a tua água

e deixamos que a tua chuva nos molhe

e que o teu aguaceiro

nos molhe até os ossos,

quando assim o quisermos

Caminhamos sobre a tua terra

e construímos nossas casas

sobre o teu solo firme,

que nos sustenta como mãos amorosas

Buscamos proteção contra o sol quente

sob a copa de tuas árvores sombreadas

e comemos os frutos que amadurecem nelas,

enquanto ouvimos o canto dos pássaros,

que se sentam nos galhos ou chocam seus ovos

Nós nadamos, chapinhamos

e deixamos os pés balançarem em teus lagos e lagoas

ou exploramos a extensão de teus rios

e a beleza de suas margens

Mas… nós expelimos gases tóxicos em teu ar

das chaminés de nossas fábricas

e dos escapamentos de nossos carros

Nós poluímos os teus riachos,

os teus rios, os teus mares,

cuspimos nas tuas águas

Sujamos os teus prados e florestas

com o nosso lixo jogado fora sem pensar,

incendiamos as tuas florestas virgens

por ganância,

destruímos o nosso próprio lar

por causa do dinheiro…

Há pouco mais de cem anos

somos como crianças malcriadas contigo, Mãe,

esquecemos o que significa consideração, empatia, responsabilidade

e respeito pela natureza, pelos nossos semelhantes,

pela vida

Tu sempre alimentaste e sustentaste generosamente todas as criaturas,

mas agora tu nos “educas”, fazendo-nos sentir as consequências de nossos atos

com toda a severidade

No fundo, não te importa

se vamos sobreviver ou não,

pois continuarás a existir sem nós…

Tu não precisas de nós.


Marcos Vieira, 2021